Mais marines <br> na base de Morón
Os Estados Unidos querem reforçar o seu dispositivo militar no Sul de Espanha e converter Morón de la Frontera em base permanente da sua força de intervenção em África.
Em Morón, nos arredores de Sevilha, está estacionada desde 2013, por períodos renováveis, uma força de elite do corpo de fuzileiros, de 850 homens (que pode atingir os 1100). Washington propôs agora a Madrid que a presença dos marines passe a ser definitiva e que esse dispositivo de «resposta rápida» seja alargado até ao limite de 3000 militares nos casos de «crise».
A transformação de Morón em base permanente da força de intervenção rápida norte-americana para África terá de ser negociada e acordada no quadro do convénio em matéria de defesa entre os dois países, mas o governo espanhol, de direita, não deverá opor-se.
O incremento de tropas norte-americanas na base sevilhana e a permanência de quatro navios de guerra dos EUA na base aeronaval de Rota, em Cádis, evidencia o papel de Espanha como elemento chave da estratégia do Pentágono para o continente africano, em especial para a África do Norte e a África Ocidental.
Recorda o diário espanhol El País que a força especial de fuzileiros em Morón foi criada na sequência do ataque, em Setembro de 2012, de milícias islâmicas ao consulado estado-unidense em Benghazi, durante o qual foram mortos o embaixador Christopher Stevens e três oficiais de segurança. Isto, no caos em que caiu a Líbia após a agressão militar dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN, com a França e a Grã-Bretanha em destaque.
Os EUA necessitaram então de implantar rapidamente na Europa do Sul uma unidade de «reacção rápida» para intervir em situações em que os seus interesses estivessem ameaçados em África.
A base andaluza começou por acolher 500 marines mas em Março último esse número aumentou para 850 e na altura cresceu também o número de aparelhos de descolagem vertical MV-22 Osprey, que passaram de seis para 12, e de aviões de reabastecimento em voo KC-130, de dois para quatro, havendo uma aeronave de apoio.
A partir de Morón, e além de operações não tornadas públicas, às ordens do Africom, o comando militar para África, as tropas norte-americanas ali estacionadas foram transportadas duas vezes para a base de Sigonella, em Itália, para incursões na Líbia, e participaram na evacuação de cidadãos estado-unidenses apanhados pelo começo da guerra civil no Sudão do Sul e em acções relacionadas com o combate à epidemia de ébola na Libéria e em outros países oeste-africanos como a Guiné (Conakry) e a Serra Leoa.
Estratégia imperial
Quanto aos destroyers da marinha de guerra dos EUA destacados em permanência para a base de Rota, eles integram o «escudo antimísseis» da NATO, uma das armas do arsenal de Washington utilizadas para ameaçar e provocar Moscovo. Tinha sido indicado que o primeiro vaso que arribou à Andaluzia, o USS Donald Cook, em Fevereiro de 2014, ficaria a patrulhar o Mediterrâneo Oriental «para neutralizar um hipotético ataque balístico do Irão ou da Coreia do Norte», conta com humor o El País. Mas não: zarpou quase de imediato para o Mar Negro, «para exibir músculo perante a Rússia em plena crise da Ucrânia». O mesmo aconteceu em Junho ao segundo destroyer, o USS Ross.
Outros dois navios de guerra, o USS Porter e o USS Carney chegarão este ano à baía de Cádis, estando-lhes destinadas já, certamente, novas missões no quadro da estratégia imperialista norte-americana de domínio mundial.
Ao mesmo tempo que ampliam o seu poderio bélico vocacionado para intervir em África, os EUA anunciam uma mudança nas suas prioridades militares na Europa. Por um lado, multiplicam os apoios a países como a Polónia e os estados bálticos – já membros da NATO –, a Ucrânia, Geórgia e Moldávia, no seu plano de cerco à Rússia; e, por outro lado, vão encerrar nos próximos anos 15 instalações militares na Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Portugal. Na base das Lajes, nos Açores, ao longo de 2015, serão despedidos 500 dos 900 trabalhadores portugueses e reduzidos 485 dos 650 militares e civis norte-americanos.
O Pentágono afirma que conseguirá assim reduzir gastos militares na Europa de mil milhões de dólares em uma década, por imposição do Congresso.
Ainda assim, os EUA continuarão a manter no Velho Continente um dispositivo de 67 mil soldados, criado depois da II Guerra Mundial e alimentado ao longo da Guerra Fria com a União Soviética. E cuja manutenção, hoje como ontem, só os desígnios imperiais norte-americanos à escala global podem justificar.